conto de outono







Com as patas dianteiras cavou a terra, deixou cair dois frutos que trazia entre os dentes e escondeu-os. Olhou à sua volta, arrebitou as orelhas, alongou o focinho e cheirando o ar, certificou-se de que estavam calmos os campos, douradas as árvores, avermelhado o tapete de folhas pelo chão. E confundia-se a raposa avermelhada e branca com as folhas, as árvores e os campos e o chão.




Ao crepúsculo chegou ouriço, os sentidos alerta, a fome a apertar. Silencioso e rasteiro depressa descobriu os frutos escondidos, descascou-os com os dentes e comeu-os. E repetidas vezes os encontrou, pois a raposa era respigadora e guardava o que lhe parecia excessivo num dia, para aqueles dias em que a terra gelava e o alimento escasseava.
E foi assim que a raposa e o ouriço se encontraram e fizeram as tocas lado a lado e nunca trocaram uma palavra, porque como é sabido, a sua linguagem traduz-se de maneira diversa. Para a raposa, o ouriço era pequeno e inofensivo e o território de um, era o território do outro e tão pouco agressivo é o ouriço, como a raposa. Solitários, os dois.
Quando o vento norte chegar, o ouriço enrolar-se-á e dormirá até à primavera. A raposa ficará mais magra, a cauda menos brilhante e menos peluda e os frutos escondidos, raros e valiosos.
E a mim, que troco palavras por traços, confundem-me estes contos antigos, avermelhados e dourados como as folhas e as árvores e as caudas e os espinhos e a terra e o chão.












dancing in the light







Chegaste cedo demais, murmuraram as pequenas garças enquanto bicavam os peixes do rio. Olharam-na de lado, na presunção da sua diferença, esguias, bico preto e na certeza de que aquele território lhes pertencia no tempo e no espaço. Era certa a leveza e a graça das mais pequenas, como incerto era o seu corpo grande, pesado, desajeitado.
A grande garça observou as residentes com curiosidade, verificou que continuavam pequenas, numerosas e ruidosas e abrindo o seu enorme bico amarelo, gritou, aturdida e feliz por estar ali, no açude, no estuário, no lago, no pântano, no arrozal. Esticou o pescoço, sentiu a direção do vento e aquele arrepio que vem com o entardecer. Em breve os dias mais curtos e a noite a crescer, por isso chegara, nessa hora, nesse prematuro dia. 
O canto dos salgueiros e dos canaviais encheu-lhe a cabeça de música. E abriu as asas, soltou as penas e as plumas e dançou a desafiar a luz.
































as duas







Duas meninas, uma grande e uma pequenina. Têm dois cães, um da cor da nata e do caramelo, o outro da cor das folhas no outono. São diferentes, mas não sabem estar um sem o outro, tal como as duas meninas.
A menina grande gosta de lápis de muitas cores e desenha tudo o que vê e o que não se pode ver. Animais da terra e do mar, estrelas e planetas, seres imaginários, pontes, casas, frutos, flores. Quando anoitece e as meninas adormecem cansadas da escola e das brincadeiras, as gavetas da secretária abrem-se e das folhas de papel sai um cavalinho branco, um leão amarelo, um pássaro dourado e andam por ali pelas paredes do quarto ou fogem pela janela aberta e só regressam de madrugada pouco antes do despertador tocar. As meninas julgam-nos habitantes dos seus sonhos e dormem tranquilas todas as noites.
A menina mais pequena gosta do mar. Nos dias de muito calor pede à irmã, desenha-me um tanque, com peixes azuis e nós lá dentro, a nadar. E a mais velha desenha e acrescenta duas meninas de fato de banho às riscas azuis e brancas, azuis como os peixes do tanque, brancas como a espuma do mar.
Agora fecha os olhos, diz a menina grande. E a pequenina fechou.
Vês as baleias a passar? Pergunta a irmã. Vejo, responde a mais pequena. E os golfinhos a saltar? Também. Agora abre os olhos, diz a menina grande dando a mão à irmã.
E do tanque passaram ao mar e mergulharam de olhos bem abertos e nessa tarde encontraram um polvo, dois ouriços e duas estrelas-do-mar.











Para a Mar, no dia do seu aniversário.







três peixes






Quando o mar se fez azul criei os peixes, mas depressa percebi que faltava um e inventei-o. Chamei-lhe Violetino, da família das violetas e ele serpenteava e não era serpente e ele dançava e não era bailarino. Então o peixe-imperador pediu às baleias que cantassem, ao vento que assobiasse pelas grutas, aos búzios que soprassem na maré-alta, ao peixe-borboleta que espalhasse esta notícia. Com as correntes travessas chegaram as algas e Violetino nunca mais parou de dançar.



















Que seja longo e feliz este verão.