os três mantos do rei





Veio o vento forte, quebrou as portas e as janelas, roubou dos armários as roupas e as tigelas e a chuva a zunir, alagou os tapetes, arrastou as cadeiras, os espelhos estalaram e os peixes vermelhos nadaram nas banheiras e o rei gritou, ai quem me acode num dia assim.
O rei era muito pequenino, mas tinha um coração grande e, tantas eram as vezes, não lhe cabia no peito. Não sei porque sou assim, gritava o reizinho, ai quem me acode e me faz um manto que me esconda do vento, da chuva e do desalento e me deixe o coração de fora para espreitar os pássaros e os peixes vermelhos que nadam nas banheiras.
Faço eu! respondeu o alfaiate. E costurou-lhe um manto de veludo bordado e tal era o peso do veludo e do bordado, que o rei encolheu cinco centímetros e chorou duas lágrimas de sal.
Não, não, sou eu que o farei, disse o joalheiro. E coseu-lhe um manto de jóias brilhantes e tal era o brilho, que o rei deixou de ver durante cinco dias e cinco noites e chorou quatro lágrimas de sal.
A cozinheira também tentou e fez-lhe um manto de claras em castelo, leve como o ar e o reizinho voou e só o agarraram dois dias depois. O rei soluçou de tanto se rir. 
Então decidiu fazer ele próprio os seus mantos. Quando a chuva parou e o vento se aquietou, foi ao jardim e escolheu três flores aveludadas, luminosas, leves, singulares e com elas se vestia quando se sentia ensolarado, rodado ou esperançado. O coração grande acompanhava-o sempre, porque agora cabia em qualquer lugar.
































Litania para quando somos pequenos 
e grandes já amanhã






a carta das estrelas





Tens frio? perguntou o menino. A raposa olhou-o, franzino, os olhos brilhantes, o casaquinho de malha a arrastar. E replicou-lhe, tens medo?
Não, disse o menino, mas posso acender as estrelas do céu e também as do mar. Como te chamas? perguntou a raposa. Menino. E tu? Raposa, respondeu a raposa.
Então o menino trepou para o dorso da raposa, segurou-se ao seu pescoço e começaram a caminhar. Atravessaram o gelo e os ursos seguiram-nos. Percorreram as florestas, os pântanos e os desertos e foram com eles os lobos, os cordeiros, os esquilos, os cavalos, os cães, as garças e os rouxinóis. Um ou outro pinguim e ao longe as baleias e os golfinhos. Às vezes paravam a descansar. A raposa sentava-se, uma estrela cintilava junto da sua orelha direita e o menino pousava a cabeça na sua cauda e adormecia. Os animais silenciavam-se e suspendiam a marcha, o voo, o mergulho, o salto e o canto. 
Não sei quando e onde chegaram, mas nessa noite, singulares foram aqueles que os encontraram e confiaram no traçado desse caminho.



 


Desejo-vos um Feliz Natal!






gosto da chuva fina que apenas vem logo vai





Não te tomo muito tempo. Mesmo sabendo que ele é relativo, longo na infância, fugidio na idade adulta, enganador na velhice, o tempo é a viagem e o regresso e provavelmente, podemos até nem regressar. Só para te falar da ausência de musgo nos caminhos da serra e daqueles três gaios que se encontraram hoje nos ramos da ameixoeira despida. O primeiro chegou às quinze horas e cinco minutos, pousou, abriu as asas e o azul das penas bateu-me nos vidros da janela e eu calada, colada aos vidros e à janela. E logo um segundo o seguiu, assobiou, esticou a cauda e depois um terceiro bebeu água nas poças do quintal e juntou-se aos outros dois, cada um em seu ramo da ameixoeira despida. Às quinze horas e dez minutos levantaram voo e voaram em direção aos pinheiros da estrada. No entanto pareceu-me eterno aquele repouso dos pássaros. 
E num desejo de que a chuva seja breve e fina, deixo-te três romãs, vermelhas e vivas. Quando os Reis vierem poderás contar quantos bagos tem cada uma delas e comê-los devagar. Um pouco antes, procura uma chaminé, uma estrela ou uma rapariga e um menino a brincar.






a rã e o rapaz magrinho como um dente-de-leão





Era uma vez um rapaz magrinho que sabia reproduzir o canto das aves. E assobiava a caminho da escola, nas aulas de música, no recreio e no regresso a casa. No quarto, na cozinha, no sótão, no jardim, no comboio e na mercearia do senhor João. Enquanto tomava banho, se vestia, se calçava e também quando penteava os seus cabelos sempre em pé e assim magrinho como era, todos lhe chamavam dente-de-leão. Nos dias de ventania, perdia um fio de cabelo ou dois e o assobio perdia-se também entre o lábio superior e o inferior, mas tirando isso, era um rapaz feliz.
A rã não sabia assobiar. Gostava da água do lago, de saltitar entre os seixos e de dar amplos saltos para os ramos das árvores e destes, novamente para a água. O sol continuava teimosamente a brilhar, o céu azul sem nuvens e pese embora a frescura das noites, a rã sentia que não lhe apetecia mesmo nada hibernar.
Uma manhã, caminhava o rapaz a imitar os melros e a rã sossegada a engolir um inseto delicioso e mais outro ainda e no final, saciada, coaxou. O rapaz ouviu-a, saiu do carreiro, aproximou-se do lago, descalçou os sapatos e as meias e sentou-se com os pés dentro de água. Silenciaram-se os dois e pela primeira vez, o rapaz entendeu as pausas que transfiguram o canto dos pássaros. Até que a rã, desafiando-o, coaxou. O rapaz riu-se e lançou o grito das andorinhas. A rã coaxou. O rapaz piou como os pardais e a rã coaxou.
És um pássaro? Perguntou a rã. O rapaz disse que não, abanando a cabeça e a sua cabeleira espetada e redonda refletiu a luz solar. Depois, com muito cuidado pegou na rã, colocou-a na palma da mão esquerda e disse, se quiseres ensino-te a cantar. A rã abriu os olhos de espanto e respondeu, se quiseres ensino-te a arte de deslizar sobre as folhas, mantendo-nos à tona de água mesmo com vento.
O fascínio daquele outono quente e seco, descobriu-o a rã no canto do rapaz magrinho e passados sete dias, a rã já sabia trautear, numa voz de baixo, mas afinada. O rapaz aprendeu o equilíbrio entre as pausas e o canto e aquele outro equilíbrio mais difícil, entre o seu corpo magro e a flutuação sem rede. Às vezes, metia a rã numa caixa com água e levava-a com ele para as aulas de música e a rã imitava as aves de grande porte e ele, os verdilhões e o chapim-real.
Não sei se o rapaz se tornou forte e grande, se o seu cabelo assentou, se a rã hibernou, se o inverno chegou, mas isso não tem a mínima importância pois eram livres os dois.