dancing in the light







Chegaste cedo demais, murmuraram as pequenas garças enquanto bicavam os peixes do rio. Olharam-na de lado, na presunção da sua diferença, esguias, bico preto e na certeza de que aquele território lhes pertencia no tempo e no espaço. Era certa a leveza e a graça das mais pequenas, como incerto era o seu corpo grande, pesado, desajeitado.
A grande garça observou as residentes com curiosidade, verificou que continuavam pequenas, numerosas e ruidosas e abrindo o seu enorme bico amarelo, gritou, aturdida e feliz por estar ali, no açude, no estuário, no lago, no pântano, no arrozal. Esticou o pescoço, sentiu a direção do vento e aquele arrepio que vem com o entardecer. Em breve os dias mais curtos e a noite a crescer, por isso chegara, nessa hora, nesse prematuro dia. 
O canto dos salgueiros e dos canaviais encheu-lhe a cabeça de música. E abriu as asas, soltou as penas e as plumas e dançou a desafiar a luz.
































as duas







Duas meninas, uma grande e uma pequenina. Têm dois cães, um da cor da nata e do caramelo, o outro da cor das folhas no outono. São diferentes, mas não sabem estar um sem o outro, tal como as duas meninas.
A menina grande gosta de lápis de muitas cores e desenha tudo o que vê e o que não se pode ver. Animais da terra e do mar, estrelas e planetas, seres imaginários, pontes, casas, frutos, flores. Quando anoitece e as meninas adormecem cansadas da escola e das brincadeiras, as gavetas da secretária abrem-se e das folhas de papel sai um cavalinho branco, um leão amarelo, um pássaro dourado e andam por ali pelas paredes do quarto ou fogem pela janela aberta e só regressam de madrugada pouco antes do despertador tocar. As meninas julgam-nos habitantes dos seus sonhos e dormem tranquilas todas as noites.
A menina mais pequena gosta do mar. Nos dias de muito calor pede à irmã, desenha-me um tanque, com peixes azuis e nós lá dentro, a nadar. E a mais velha desenha e acrescenta duas meninas de fato de banho às riscas azuis e brancas, azuis como os peixes do tanque, brancas como a espuma do mar.
Agora fecha os olhos, diz a menina grande. E a pequenina fechou.
Vês as baleias a passar? Pergunta a irmã. Vejo, responde a mais pequena. E os golfinhos a saltar? Também. Agora abre os olhos, diz a menina grande dando a mão à irmã.
E do tanque passaram ao mar e mergulharam de olhos bem abertos e nessa tarde encontraram um polvo, dois ouriços e duas estrelas-do-mar.











Para a Mar, no dia do seu aniversário.







três peixes






Quando o mar se fez azul criei os peixes, mas depressa percebi que faltava um e inventei-o. Chamei-lhe Violetino, da família das violetas e ele serpenteava e não era serpente e ele dançava e não era bailarino. Então o peixe-imperador pediu às baleias que cantassem, ao vento que assobiasse pelas grutas, aos búzios que soprassem na maré-alta, ao peixe-borboleta que espalhasse esta notícia. Com as correntes travessas chegaram as algas e Violetino nunca mais parou de dançar.



















Que seja longo e feliz este verão.








espécie






Falo-te destas coisas, simples como as folhas do loureiro, para que as guardes na memória e depois as contes e as voltes a recontar. Acrescenta um ponto ou dois, mas deixa espaço entre as linhas e os parágrafos, como entre as pausas e a melodia. Se é assim na música, porque não o seria com o arroz de açafrão? Esta é a especiaria mais cara. Em cada flor roxa crescem apenas três estigmas carmim, que dão o perfume, a cor, o sabor e são necessárias quinze mil flores para obter cem gramas de açafrão. Coloca-se uma medida de arroz jasmim no fundo de um tacho, uma colher de chá de sal, duas medidas de água e quando esta ferver, solta-se uma mão-cheia dos estigmas secos de açafrão, tapa-se o tacho e deixa-se cozer em lume brando durante dez minutos. Saboreia-se acompanhado, ou não.
E no entanto há um outro, açafrão-da-terra, curcuma, raiz-de-sol, açafrão-da-Índia. Uma raiz como o gengibre que depois de seca e moída dá um pó amarelo-torrado e podemos cozinhá-lo, tingir um vestido, pintar uma tela. Sem ele o caril não seria o mesmo e a flor é distinta, avermelhada, como distinto é o seu sabor.
Tudo isto para te dizer, que especieiro não é somente aquele que vende especiarias, mas aquele que as interpreta seguindo as notas da pauta ou as notas à sua margem. A flor da curcuma secou, empalideceu, terreou.
Pode uma flor mudar a face deste verão?





flor da curcuma