apontamento







Breve, como o tempo das castanhas. Apenas para dizer que as folhas se avermelharam nos ramos e que a trepadeira virada a norte finalmente se despiu e teve um arrepio de frio esta noite. A rã já não mora no tanque, ignoramos se hibernou, feneceu ou iniciou o caminho de volta. Girino, ovo, embrião, água de charco. Os melros calam-se mais cedo, mas continuam negros de fumo e afoitos, sem medo de nada. Os gaios abalaram e abalaria eu também não fora a incerteza do destino ou o desapontamento da chegada.
A perna-verde é tão somente para ilustrar, que é sempre bom ter um pé na água e outro no ar e que o musgo cobrirá em breve as pedras da serra.
























de cauda anelada








Era uma vez uma rainha que possuía um pescoço de altura invulgar. Não tão longo como o pescoço das girafas, não tão desajeitado como o das avestruzes. Quando atravessava os salões, a cabeça tocava nos candelabros e sentada à mesa para jantar, era obrigada a perguntar que alimentos lhe serviam no prato. Era a primeira a avistar as nuvens de tempestade, os torreões e os cometas. Em tudo o mais, era uma mulher sábia, bondosa e justa, apenas aterradora para os menores de cento e cinquenta centímetros e os animais domésticos de quatro patas.
Não é pois de admirar que tivesse uma paixão por lenços, echarpes, cachecóis, gargantilhas e camisolas de gola alta.





Os seres de cauda-anelada habitavam uma ilha a oriente e eram mansos e pacíficos, alimentando-se de frutos, de flores, de cascas e de seiva. Gostavam da luz do sol e dominavam uma linguagem própria com variadas e significativas vocalizações. Protegiam-se dos ataques dos inimigos, em bloco, unidos e não destoavam uns dos outros, pretos e brancos, as caudas enroladas até ao pescoço. E a vida era como o rio que atravessava a ilha, sem um rápido, ou uma cascata, ou uma pedra a desentoar.
Mas um dia apareceu um estranho, mais alto, mais forte. Combatia sozinho, uivava, predador de roedores, o que não estava decerto na sua natureza. E a natureza mudou.




E a rainha fez saber, que no dia do seu aniversário, como era tradição e sobretudo do seu agrado, muito gostaria de receber como presente, cachecóis, echarpes, lenços, gargantilhas e camisolas de gola alta. Os habitantes do seu reino alegraram-se porque a amavam, mas preocuparam-se, pois tornava-se cada vez mais difícil não repetir tecidos, padrões, esquadrias, cores e materiais.
Foi então que apareceu o estranho, alto, forte e pediu para ser recebido pela rainha. Disse que sabia de um reino de seres que teciam cachecóis de pelo macio e fofo, e que assim enrolados no pescoço da rainha, o tornariam discreto e elegante. A rainha ficou curiosa e quis acompanhar o estranho na viagem de ida e este disse que não, mas por muito estranho que pareça, não é possível recusar uma ordem real.




Atravessaram o mar, depois o rio, contornaram as ruínas, os poços, os troncos, a floresta de galeria. Por fim chegaram. Os seres de cauda anelada, assustados, juntaram-se e o estranho, sacando de uma faca afiada, aproximou-se dos mais pequenos com o intuito de lhes cortar as caudas. A rainha, levando a mão ao pescoço, gritou, um grito agudo e lancinante e o estranho suspendeu o gesto e a faca e fugiu. Silenciaram-se os seres e a ilha. Empreendida a viagem de volta, nunca mais a rainha cobriu de panos o seu pescoço e todos viram que afinal era belo, esguio e flexível.
Nos dias de sol caminham com ela dois seres anelados em cada um dos seus ombros. 









arco e flecha









Apanhou bagas vermelhas, outras de zimbro, sementes de girassol, algumas avelãs. Ao longe a voz da mãe chamava e ela já não reconhecia a mãe, a voz e a distância entre as três. Num canto escondido do jardim há sempre um animal ferido à nossa espera.
E para espantar a tarde escura, fez um colar de bagas venenosas presas num fio fino de tecer insónias e coseu-as, devagar, enquanto a chuva acordava as rãs. 













o outro peixe










Quando as baleias e os golfinhos nortearam, ele pigarreou duas ou três vezes e rumou na direção contrária. Agora preciso de partir, grugulejava o peixe, enquanto soltava centenas de bolhas de ar que subiam à superfície e daí para a atmosfera até não ser mais possível respirar. Era um peixe idilista, acreditava que o mar comunicava com os rios, os rios com as lagoas, as lagoas com os cursos de água subterrâneos e estes com as nascentes e com as lágrimas que os peixes possam chorar. Nesta simplicidade crente, tinha viajado pelas cidades lagunares e aquelas mais distantes onde os homens falam distintas línguas e se alimentam de variadas e estranhas formas. Contudo, assemelham-se nos gestos, tal como os cristais de sal são semelhantes a todos os poliedros regulares e cada mão tem cinco dedos e os peixes, barbatanas para nadar. Para ele era claro como a luz, que um dia, dando ele por isso, seguiria a cauda de um cometa e com o coração calmo e leve a quilha, flutuaria naquele infinito azul de peixes e estrelas do ar.














the october fish


Now, oh now, I needs must part