as duas







Duas meninas, uma grande e uma pequenina. Têm dois cães, um da cor da nata e do caramelo, o outro da cor das folhas no outono. São diferentes, mas não sabem estar um sem o outro, tal como as duas meninas.
A menina grande gosta de lápis de muitas cores e desenha tudo o que vê e o que não se pode ver. Animais da terra e do mar, estrelas e planetas, seres imaginários, pontes, casas, frutos, flores. Quando anoitece e as meninas adormecem cansadas da escola e das brincadeiras, as gavetas da secretária abrem-se e das folhas de papel sai um cavalinho branco, um leão amarelo, um pássaro dourado e andam por ali pelas paredes do quarto ou fogem pela janela aberta e só regressam de madrugada pouco antes do despertador tocar. As meninas julgam-nos habitantes dos seus sonhos e dormem tranquilas todas as noites.
A menina mais pequena gosta do mar. Nos dias de muito calor pede à irmã, desenha-me um tanque, com peixes azuis e nós lá dentro, a nadar. E a mais velha desenha e acrescenta duas meninas de fato de banho às riscas azuis e brancas, azuis como os peixes do tanque, brancas como a espuma do mar.
Agora fecha os olhos, diz a menina grande. E a pequenina fechou.
Vês as baleias a passar? Pergunta a irmã. Vejo, responde a mais pequena. E os golfinhos a saltar? Também. Agora abre os olhos, diz a menina grande dando a mão à irmã.
E do tanque passaram ao mar e mergulharam de olhos bem abertos e nessa tarde encontraram um polvo, dois ouriços e duas estrelas-do-mar.











Para a Mar, no dia do seu aniversário.







três peixes






Quando o mar se fez azul criei os peixes, mas depressa percebi que faltava um e inventei-o. Chamei-lhe Violetino, da família das violetas e ele serpenteava e não era serpente e ele dançava e não era bailarino. Então o peixe-imperador pediu às baleias que cantassem, ao vento que assobiasse pelas grutas, aos búzios que soprassem na maré-alta, ao peixe-borboleta que espalhasse esta notícia. Com as correntes travessas chegaram as algas e Violetino nunca mais parou de dançar.



















Que seja longo e feliz este verão.








espécie






Falo-te destas coisas, simples como as folhas do loureiro, para que as guardes na memória e depois as contes e as voltes a recontar. Acrescenta um ponto ou dois, mas deixa espaço entre as linhas e os parágrafos, como entre as pausas e a melodia. Se é assim na música, porque não o seria com o arroz de açafrão? Esta é a especiaria mais cara. Em cada flor roxa crescem apenas três estigmas carmim, que dão o perfume, a cor, o sabor e são necessárias quinze mil flores para obter cem gramas de açafrão. Coloca-se uma medida de arroz jasmim no fundo de um tacho, uma colher de chá de sal, duas medidas de água e quando esta ferver, solta-se uma mão-cheia dos estigmas secos de açafrão, tapa-se o tacho e deixa-se cozer em lume brando durante dez minutos. Saboreia-se acompanhado, ou não.
E no entanto há um outro, açafrão-da-terra, curcuma, raiz-de-sol, açafrão-da-Índia. Uma raiz como o gengibre que depois de seca e moída dá um pó amarelo-torrado e podemos cozinhá-lo, tingir um vestido, pintar uma tela. Sem ele o caril não seria o mesmo e a flor é distinta, avermelhada, como distinto é o seu sabor.
Tudo isto para te dizer, que especieiro não é somente aquele que vende especiarias, mas aquele que as interpreta seguindo as notas da pauta ou as notas à sua margem. A flor da curcuma secou, empalideceu, terreou.
Pode uma flor mudar a face deste verão?





flor da curcuma







deixa a baga do loureiro






berço
trave
cama
cadeira
cavalete
mesa
escada





  baloiço 
barco
cancela 
porta
ninho
tecto
chão




harpa
violino
piano
guitarra
violoncelo
pau de virar tripas
pião






se cuidas de mim, eu cuido de ti também