o urso ainda não despertou






Não me importa se chover. O casaco protestou, não me atires para aqui, não me feches, esqueceste-te da chave de casa no bolso, vais-te arrepender.
Da súplica à ameaça. É um casaco de tweed castanho, com bolsos, botões e sentimentos. Um ser bizarro com cabeça de lã. Hesitei. Levo-te a passear quando os amores-perfeitos pintarem de veludo os canteiros, prometi-lhe. E as andorinhas, gritou ele, não me prives das andorinhas. Fechei a porta do roupeiro, a voz do casaco perdeu-se entre os cabides e as gavetas e eu com um frio fininho na nuca.
Quando o silêncio se instalou, sentei-me na varanda e abri a carta do urso. Ainda não acordei, contava ele, e no entanto o degelo já começou. Às vezes ouço a minha barriga roncar de fome e as reservas de gordura desapareceram do meu peito. O caçador que sou eu e também não sou, chama-me todas as manhãs e eu respondo-lhe, volta mais tarde quando a noite chegar, bate-me à porta, traz-me um sonho bom, um desejo de mergulhar na água gelada e depois flutuar de barriga para as nuvens. 
Pousei a carta sobre os joelhos e pensei no urso que sou eu e também não sou e nesse facto estranho de sermos ambos capazes de escrever e hibernar em simultâneo. O urso tem uma pele quente e eu tenho um casaco com cabeça de lã. Fui buscá-lo ao roupeiro e fomos os três apanhar chuva.










o rio de jade





Era uma vez um rei que habitava um palácio rodeado de flores. Ele acreditava que por cada flor que plantasse, mil bênçãos desceriam sobre a sua cabeça, protegendo-o dos inimigos que lhe cobiçavam as terras, as casas, os campos semeados, o palácio, os rios que circundavam o seu reino. Todos os dias saía com os jardineiros do palácio e jardinava com eles a cantarolar. Depois convidava, à sorte, três deles, para o chá. Abria o tabuleiro quadrado, as quatro réguas, espalhava as peças e sentados no chão, jogavam Mahjong até escurecer. O rei era paciente, curioso e não gostava que o deixassem ganhar. Dizia que aquele jogo era como a vida, sujeita às estações, quentes, frias, gloriosas de verde ou de dourados tons.
Para o resguardar e enquanto jogava, os cortesãos desenrolavam tecidos de seda sustentados por canas de bambu e para que não voassem, ora lhe davam nós, ora os cosiam com linhas coloridas, ora os colavam com resina. Mas vinha o vento norte e rasgava, e o vento sul roubava, e o vento do oeste queimava, e o vento este desfiava-os como se fossem cabelos de criança.
Numa tarde de grande ventania, o rei, paciente por natureza, impacientou-se e lançando ao ar o tabuleiro, espalhou pelo chão as rodas e os caracteres e gritou:
-Não haverá um artesão neste meu reino, suficientemente criativo para imaginar uma forma de aquietar esta dança?
E apontando para o mais jovem dos jardineiros, acrescentou:
-Dou-te três dias, sob pena de não jogarmos mais Mahjong.
Os cortesãos assustaram-se, pois se aquele jogo era como a vida, o que seria da vida do rei sem as flores, a sucessão das estações, os ventos, a roda, os bambus, a escrita?
O rapaz não se amedrontou, foi para casa, comeu uma taça de arroz, bebeu chá, estendeu uma esteira e adormeceu. Nessa noite sonhou com um dragão vermelho que o convidou a segui-lo e o rapaz deu a volta à terra nas costas do dragão e já era quase manhã quando acordou.
Na segunda noite apareceu-lhe um dragão verde e o rapaz pediu-lhe, ensina-me a prender os panos do rei, pois esta é a noite do segundo dia e eu não sei o que fazer. O dragão verde riu-se e voaram os dois sobre os arrozais e descansaram na copa verde das árvores.
Na terceira noite, o rapaz, ansioso, não conseguia adormecer. Contou as teias de aranha do teto, passou às estrelas e quando por fim sentiu as pálpebras pesadas, apareceu um dragão branco que o abanou. Era o mais belo dos três dragões e disse, segue-me e o rapaz seguiu-o e mergulharam os dois num rio de jade e umas vezes o rio corria a céu aberto e outras escondia-se terra adentro e o dragão e o rapaz ora mergulhavam, ora vinham à superfície e derivavam pela água como a seda mais macia.
Na manhã do quarto dia, o rapaz esculpiu em jade três fivelas e ofereceu-as ao rei. As fitas de seda deslizaram, umas vezes a céu aberto, outras como um rio subterrâneo e sustentaram a dança dos panos e dos quatro ventos. E o rei e o rapaz jogaram Mahjong até escurecer.

























o visitante





Passou um rei e largou-o no parapeito da janela. O gato, habituado aos habitantes secretos do jardim, olhou-o, virou-se para o outro lado e adormeceu. Dei-lhe migalhas de pão e sementes de sésamo e ele saltitou. Não sei se possui sangue azul ou vermelho ou sequer, se é um pássaro.





dois mil e dezassete








-Contámos dois mil e dezassete seixos
-E outras tantas estrelas.
-Não sei porquê.
-Nem é preciso. Vira-te para nascente e voa.

No ruído da noite, ninguém ouviu aquele grasnar de aves.