da hera que cobre os muros de pedra




Procura-se casa com um nome bonito. Branca-Flor, Belo-Ar, Alva, dos Cedros, dos Lagos, do Ulmeiro, do Jardim. Habitam-nas os faunos, os gnomos, protegem-nas os espíritos da hera que cobre os muros de pedra. Ladram-lhes os cães que lhes conhecem os hábitos e lhes adivinham as horas. As de cantar, as de chorar, as de escrever poemas na calçada.
Dormir, não dormem. Vigiam as aves para que não se lhes quebrem as asas e as flores de pessegueiro para que não tombem com a chuva forte. Escutam-se vozes pelas janelas abertas e as palavras doces descansam na beira dos telhados. Regressaram hoje as andorinhas.















os idos de março









Escondemos uma chave no vaso verde-musgo da entrada. Existem outros ritos, debaixo do tapete, atrás da coluna do lado esquerdo, na caixa do correio, no cesto do gato, mas este é o mais seguro. Ninguém procurará uma chave de casa escondida no vaso verde-musgo da entrada. Os muros, as grades, os sistemas de vigilância, os alarmes sonoros, os cães que ladram e não mordem, alimentam o imaginário urbano e aquele que pretende entrar, entrará sempre, independentemente dos obstáculos que se lhe deparem. Já vos falei da rã, que por terem deixado secar a água da Casa dos Lagos aqui da rua, atravessou a estrada, saltou duzentos metros e mudou-se para o vaso verde-musgo da entrada. Coaxou o inverno todo e agora calou-se. Foi-se embora neste mês de março. A chave guardou a memória da rã, dos lagos, dos mosquitos ao entardecer, dos saltos altos. Um dia destes abala, em busca da rã ou de uma porta pintada de verde-esmeralda. 











o pássaro redondo e o pé-de-flor






Era uma vez um pássaro que apenas gostava de bagas azuis. Quando abundavam os arandos, ele devorava-os sofregamente, arredondava-se, as penas tingiam-se de azul-celeste e a cauda, de azul do mar.
Não gosto de morangos, não gosto, piava o pássaro. Não gosto de groselhas, nem de framboesas, nem das amoras do campo, insistia o pássaro. E cambalhotava por ali e nos dias de sol, ninguém via o pássaro, azul sobre azul, ou por sobre o mar.
Às vezes chocavam com ele as escrevedeiras-das-neves e ele assustava-se, perdia o equilíbrio, caía nas ervas ou nas pedras, com a cabeça a girar. Foi num destes momentos que encontrou o pé-de-flor. Redondo, como ele. O pé-de-flor pertencia à espécie de plantas inventadas pelas escrevedeiras-de-pescoço-preto e abria-se em pequenas bagas de muitas cores. Que falta de sensibilidade, pensou o pássaro ao contemplar a planta. Mas como ainda se sentia estonteado da queda, calou-se e o pé-de-flor embalou-o num canto manso e o pássaro fechou os olhos e adormeceu.
O pé-de-flor habituou-se aos voos intrépidos do pássaro e às suas aterrizagens forçadas e gostava da sua companhia. Todos os dias o pássaro pousava na relva e comia uma baga do pé-de-flor, ora vermelha, ora amarela, ora branca. E durante a noite, uma baga tomava o lugar da outra e o pé-de-flor crescia e coloriam-se as penas da quilha do pássaro e eram ambos visíveis e afáveis para todos os seres alados e outros animais de quatro patas.
No entanto, a cabeça do pássaro permaneceu azul.





















o urso ainda não despertou






Não me importa se chover. O casaco protestou, não me atires para aqui, não me feches, esqueceste-te da chave de casa no bolso, vais-te arrepender.
Da súplica à ameaça. É um casaco de tweed castanho, com bolsos, botões e sentimentos. Um ser bizarro com cabeça de lã. Hesitei. Levo-te a passear quando os amores-perfeitos pintarem de veludo os canteiros, prometi-lhe. E as andorinhas, gritou ele, não me prives das andorinhas. Fechei a porta do roupeiro, a voz do casaco perdeu-se entre os cabides e as gavetas e eu com um frio fininho na nuca.
Quando o silêncio se instalou, sentei-me na varanda e abri a carta do urso. Ainda não acordei, contava ele, e no entanto o degelo já começou. Às vezes ouço a minha barriga roncar de fome e as reservas de gordura desapareceram do meu peito. O caçador que sou eu e também não sou, chama-me todas as manhãs e eu respondo-lhe, volta mais tarde quando a noite chegar, bate-me à porta, traz-me um sonho bom, um desejo de mergulhar na água gelada e depois flutuar de barriga para as nuvens. 
Pousei a carta sobre os joelhos e pensei no urso que sou eu e também não sou e nesse facto estranho de sermos ambos capazes de escrever e hibernar em simultâneo. O urso tem uma pele quente e eu tenho um casaco com cabeça de lã. Fui buscá-lo ao roupeiro e fomos os três apanhar chuva.